sábado, setembro 30, 2006

Epílogo



A primeira vez é a mais complicada...

Não sei se será sempre assim, no entanto, a (in)experiência que tínhamos, levou a que nem sempre optássemos pelas melhores soluções.

É hora de avaliar todo um percurso não só de estrada, mas de vida.

O caminho faz-se caminhando...

E não será só andar para chegar ao destino!

Ou melhor, é chegar a um destino muito mais longínquo do que o local de chegada...

Nós!

E quantas vezes não nos ouvimos? Quantas vezes andamos de costas voltadas para nós?

Na adversidade do Caminho, naqueles momentos em que, em grupo, pedalávamos sós, tive a oportunidade de me ouvir... me escutar...

Pode parecer uma chinesice, mas a verdade é que todos crescemos, e regressámos um pouco diferentes...

Piores ou melhores...?? Simplesmente diferentes!

Compostela está na moda, ou melhor, o Caminho.

Vários grupos foram, nestas últimas semanas, em peregrinação a Santiago. Pelo que fui percebendo, todos acharam esta experiência extremamente enriquecedora.

Mas nem tudo o que lemos nos prepara para o que vamos encontrar!

A serra da Labruja é dura? Mas o que é isso? São apenas 2 ou 3km!!! Faz-se bem!! Ou não!

Foram os 2 ou 3 Km mais duros que estas perninhas já fizeram!

Depois há a preparação dos materiais.

Por exemplo, levávamos mochilas impermeáveis, no entanto, foram inconsequentes para a chuva que apanhámos!

Para a próxima já sei!

Tomem nota:

Se forem de bicicleta não se esqueçam das habituais ferramentas: Câmaras de ar suplentes, pneu, bomba de ar e remendos (ah! Não façam como eu que comprei um kit mas que alguém palmou o tubo de cola... cuspe não serve...).

Depois, não esqueçam de por dentro de sacos plásticos toda a vossa roupa! Se apanharem chuva vão agradecer!

Há quem não goste muito, mas uns extensores para o guiador dão muito jeito!

Luvas! Importante! Pode não parecer, mas umas luvas ajudam, e de que maneira, as nossas mãozinhas...

Calções de ciclismo. Se a zona do “Equador” não estiver calejada, não servirá de muito os calções, no entanto, depois de ganhar calo...

Ainda não tenho, mas vou pôr! Pedais para prender as botas! No início, custa a habituar (que o diga o João com as suas “quedas artísticas”) mas depois, a sua ajuda é enorme!

Para beber: Isostar ou algo do género! Vão sentir a diferença relativamente a beber só água!

Levem uma máquina, de preferência pequena (a minha Canon EOD 350D é enorme!!!), pois vale a pena registar muitas das imagens que vemos!

Quanto a dinheiro, a minha viagem ficou pelos 25 – 30 euros/dia/pessoa.

Sabendo que em Espanha não se “paga” o alojamento (cada um dá o que quiser) e que cada refeição fica pelos 6/7 euros.

Portugal fica mais caro, uma vez que não há albergues e temos de pernoitar em pensões, claro que podem dormir na “Pensão Estrelas”, mas um banho quente no final de cada jornada é como sopa no mel...!!

E depois, partilhem... cada experiência é única e transcendente.

BOM CAMIÑO!!!!!!
PM

quarta-feira, julho 19, 2006

CAPÍTULO VIII

O dia acordava soalheiro e quente! Parecia mesmo que S. Pedro tinha andado a brincar connosco nos últimos dois dias!

Os músculos tinham entrado em greve e parecia que doíam todos! É engraçado o nosso cérebro: até ao dia anterior as dores eram as “normais” do esforço ao qual não estávamos habituados, mas neste dia...

Depois de um pequeno almoço que me fez suspirar mais uma vez pelas pastelarias portuguesas, fomos, pois estávamos ainda em falta, cumprir os rituais do peregrino.

Para nosso desconsolo a Missa estava mesmo no fim, no entanto Tiago recebeu o meu agradecido abraço. Foi uma sensação muito boa... Apesar do guarda e dos magotes de pessoas que se atropelavam para não perder pitada.

Por coincidência, houve logo a seguir outra missa e por isso não podemos mandar a tolada na pedra e pôr a mão. Quer dizer, depois de “chorarmos” um bocadinho a menina lá nos deixou perante o olhar indignado e a voz esganiçada de uma colega!

Depois de cumprida a tradição e a devoção, era hora de resolver a viagem de volta.

Decidiu-se alugar um maquinão (um Opel Meriva) nos levou de regresso a casa!

Lá encaixamos as nossas bicicletas e os sacos e fizemo-nos á estrada.

Para trás ficavam Santiago de Compostela e 350 Km de aventura, cansaços, (des)ilusões, mas de muita, muita, alegria e sentimento de dever cumprido!

terça-feira, julho 04, 2006

Capítulo VII

Quando acordámos já poucas pessoas estavam no Albergue, vá-se lá saber porquê...
Mesmo assim, estávamos mortinhos para dar ao slide de lá!
O dia estava cinzento, mas nada de chuva. Menos mal!
Tomámos o pequeno almoço numa pastelaria simpática. E lá partimos para o último dia de viagem!

Cerca de 65 quilómetros, a maior etapa da aventura! Mas, pelo que sabíamos, o Caminho não era muito desnivelado.
A saída de Pontevedra foi complicada pois na praça principal deixámos de ver setas e as pessoas davam indicações contrárias... Por fim lá conseguimos entrar no Caminho.
Pedalávamos há pouco tempo quando S. Pedro voltou a fazer das suas.
E o pior é que ele nem se importou com isso! Resultado: cinquenta quilómetros debaixo de chuva!
Não estava muito vento, mas algo nos empurrou, pois a viagem até Caldas de Reis foi um instante! Foram vinte e três quilómetros em que voámos!
Mesmo assim, eu estava gelado, quando saí do Albergue ainda ponderei vestir as calças de ciclismo, mas, em má hora, acabei por desistir da ideia. Os calções molhados não são, definitivamente, algo confortável.
Quando parámos no Cartório Paroquial, a chuva caía abundantemente. O Pároco local foi de uma gentileza extrema! Deixou que três poças de água com pernas entrassem e descansassem um pouco debaixo do abrigo do seu tecto!
E ainda por cima, quando fomos ao quarto de banho deixámos um trilho de água, indicando que por lá tínhamos passado...
Entretanto a chuva acalmou um pouco. Carimbámos os passaportes e despedimo-nos do nosso novo amigo.
Subimos para as nossas montadas e partimos em direcção a Compostela.
A hora da larica estava a chegar e, pelo caminho, não víamos nada a não ser campos, chuva, muita chuva aliás, riachos, ribeiros e afins.
No fim de um trilho paralelo à 550, perto de Pádron, virámos á esquerda e uns duzentos metros á frente estava nosso o paraíso: um restaurante!
Envergonhados pelo nosso estado (se o corpo humano é constituído por 70% de água, naquele momento, asseguro, o nosso chegava muito perto dos 100%, tal era a molha), pedimos para entrar.
A menina que nos atendeu foi muito simpática, não se importando minimamente que três marmanjos inundassem o restaurante.
Para variar, umas bocattas! Mas souberam divinalmente! Ainda por cima quentinhas... Hummm... ainda estou a ver a nossa cara: Encharcados, cansados mas a saborear a refeição com um brilhozinho nos olhos!
A paragem fez bem a toda a gente, incluído S. Pedro! Depois de almoço a chuva acalmou!
Santiago estava perto, era hora de partir!
Esta última parte foi das mais duras, não física mas psicologicamente.
Muitas vezes nos fechámos em nós próprios...
Estávamos esgotados...
O que nos ia dando ânimo eram os marcos que nos diziam que faltavam cada menos quilómetros.
Quando apareciam subidas, já ninguém fazia esforço para pedalar por elas acima. Descia-mos das bicicletas e lá íamos a caminhar.
Parecíamos uns soldados que voltavam da guerra. As nossas pernas, fruto de quilómetros de mato a bater, estavam cheias de feridas, as roupas estavam encharcadas e sujas de lama, quer dizer, a lama era o factor comum nas roupas, bicicletas, alforges e em nós próprios!
Passávamos no Agro dos Monteiros, faltando uns 4 quilómetros, quando avistámos ao longe, aquilo que pareciam ser as torres da Catedral...
Estava quase!
O moral subia á medida que nos aproximávamos!
Porém quando chegámos à subida da Choupana fomos sentindo as forças esvaírem-se.
Aquilo parecia que não tinha fim!
Aos poucos, fomos reconhecendo a zona da Catedral.
Montámos as bicicletas e fizemos uma entrada “triunfal” na Praça do Obradoiro, onde se situa a Catedral.
Foi indescritível!
Um turbilhão de emoções passou por mim! Senti vontade de rir, chorar ou, simplesmente de ficar parado a olhar para a fachada a da Catedral!
Depois da fotografia da praxe, sentei-me no chão por minutos onde revivi em catadupa a viagem desde Ílhavo até Santiago.
Tínhamos conseguido!
Havia dúvidas? Claro que não!
A Catedral já tinha fechado, pelo que fomos tratar das nossas Compostelas! O documento que atesta que fizemos o Caminho de Santiago como peregrinos!
Depois, decidimos procurar alojamento.
Tínhamos o Albergue do Peregrino, mas depois do dia de hoje merecíamos descansar sem ter de ouvir o João a ressonar...
Nesse dia percebi o que S. José e Maria sentiram: Nas dez pensões ou hotéis em que entrámos, nenhuma tinha quartos ou só havia um...
Já desanimávamos, quando, por fim, arranjámos os dois quartitos que procurávamos. Caros (Q.B.) e sem pequeno almoço, mas já estávamos por tudo...
Arrumadas as bicicletas enlameadas, lá fomos para os quartos.
Das cores originais das nossas malas, só nos restava a lembrança, pois estavam castanhas de lama!
Mas a aventura não terminou! Depois do banho quentinho, quando pegámos nas nossas roupas, elas estavam encharcadas!
Ainda consegui enxugar uma T-shirt no sacador do hotel e vestir umas calças que com o calor do corpo foram secando, mas a Cris estava sem nada seco para vestir.
A tropa manda desenrascar, e neste caso a Cris teve de vestir a roupa molhada, pois tínhamos de sair para jantar e a fome começava a apertar.
Estávamos a caminho do restaurante quando apareceram os nossos companheiros de viagem: o Zé, a Susete e a Dora!
Foi (mais) uma alegria!
Como estávamos perto do hotel, perguntámos se não teriam uma roupita seca que pudessem emprestar... Enquanto eu, o João e a Susete fomos andando para o restaurante, os restantes foram tratar da roupa.
Passados uns minutos chega a Cris, vestida com roupa do Zé, cinquenta números acima!! Mas o mais importante é que agora estava sem frio!
O jantar foi divinal! Umas tapas (deliciosas), tortilha, salada, carne, sobremesa; tudo acompanhado com um Néctar de Baco fantástico!
Pelo meio do jantar recebi uma prenda! Um cão de louça. VERDADEIRO! Com aquele olhar! Para a caça não há melhor! Lá diz o Rouxinol Faduncho!
Para terminar um café (daquele espanhol... arghh) que tinha por muleta um bagacinho (Hummm...) e umas ginjinhas!!
Saímos de lá quase a cantar o fado, e não fosse o cansaço, que deu em preguiça, tínhamos virado umas queimadas!
O dia já ia muito longo, e depois das despedidas, lá fomos direitos ao Vale dos Lençóis.

sexta-feira, junho 16, 2006

CAPÍTULO VI

O dia acordou cinzento e nós cheios de sono!
Depois do inquérito feito pelo companheiro de camarata, albardámos as bicicletas e fomos á procura de um boteco para tomar o pequeno-almoço.
Que saudades das pastelarias portuguesas!
Depois de meter alguma energia, lá nos fizemos ao Caminho, rumo a Caldas de Reis.
Esperavam-nos 70 quilómetros de pedal!
A partir de Tuy, o Caminho está marcado com um azulejo azul com uma viera amarela. De quando em vez aparecem uns marcos com a distância que falta percorrer.
O moral das tropas andava em baixo, mas a vontade de chegar a Santiago, era forte.
O Caminho em Espanha é mais fácil que em Portugal, quer a nível de piso quer a nível de declive, no entanto, o cansaço acumulado tornou tudo muito mais complicado.
Como sabemos, o Caminho de Santiago trilhado originalmente por peregrinos, tem muitas Capelas e Igrejas como pontos de referência e de passagem. Acontece que, algumas vezes, andámos o dobro apenas para passar á porta da Igreja ou Capela xis, e que até se encontravam encerradas!
As recordações dos dois últimos dias esfumam-se nas brumas da memória. De facto, as imagens são muito poucas! Pedal, bicicletas, as nossas caras de cansaço, subidas, outras subidas e ainda mais subidas! Qualquer declive por mais pequeno que fosse, era a “encarnação” dos Himalaias!
Mas nem tudo foi mau.
Alguns quilómetros da viagem fora feitos em asfalto. O único senão foi o facto de estarmos a atravessar o Polígono Industrial de Porriño, com os camiões e o tráfego a ditarem leis. No entanto, subindo para o passeio via-mos o trânsito passar-nos ao lado!
Depois de nos perdemos mais uma vez (a seta estava coberta com vegetação) entrámos na terra batida em direcção a Redondela.
Chegados lá, e depois de carimbar os passaportes e conhecer “los servicios”, umas sandochas de presunto e umas colas, no bar em frente, pareceram-nos um verdadeiro manjar de reis, tal era a galga!
O fim da jornada de hoje estava programado para Caldas de Reis, no entanto, quis S. Pedro, aliviar águas, e fomos nós quem levámos com ela!
Resultado: Apanhámos uma molha…
A vontade foi chegar o mais rápido a Pontevedra!
Chuvia copiosamente quando chegámos ao Albergue muito perto das 4 da tarde.
De lá veio a pior noticia do Mundo!
O Albergue estava cheio!
Estávamos nós quase em choque, quando todos se começam a rir! Tínhamos sido apanhados!
Afinal ainda havia camas!
Depois de carimbados os nossos Passaportes, e como era cedo, ainda olhámos para o firmamento nas esperança de ver a chuva partir, mas os 23 quilómetros que nos separavam de Caldas de Reis teriam de ficar para o dia seguinte!
Tomámos um banho quente, descansámos e perto da hora de jantar, fomos experimentar a verdadeira comida de Shopping Center! Umas Boccatas, no restaurante com o mesmo nome, foi o nosso repasto.
Apesar da chuva, um gelado veio mesmo a calhar!
Regressámos ao Albergue onde aproveitamos para gozar o “Dolce fare niente!...”, até serem horas de dormir.
Conhecemos várias pessoas, mas houve uma que me marcou: um Brasileiro a caminho da meia idade. A primeira vez que o vi, estava ele todo torto a fazer qualquer coisa tipo yoga.
Quando falámos, contou que tinha feito o Caminho Primitivo, quarenta e três dias de viagem!
Depois de chegar a Santiago, foi até Finisterra onde apanhou um barco para o Porto, iniciando aí o Caminho Português!
E eu que dizia que andava cansado depois de 4 dias de bicicleta!
Quando o João Pestana picou bilhete, deitei-me, qual guerreiro no seu justo descanso!
Dormia eu há não sei quanto tempo, sou acordado pelo João!
- Mas que é isto? Não tens vergonha? ‘Tás farto de ressonar e as pessoas querem dormir...
Eu não estava a perceber nada... Eu que era a pessoa mais perto de mim não ouvia nada! Que falsidade!
O resto da noite foi muito complicado... Com medo de “não” deixar dormir os valentes peregrinos, estive sempre a acordar. Ainda por cima, aquele senhor que me tinha acordado ao início da noite, decidiu roubar-me o protagonismo e desatou a ressonar!...
Eu percebi o que ele quis fazer... Acordou-me, falou comigo para toda a gente ouvir, e depois dormiu descansado pois as pessoas do albergue julgavam que era eu!
Mas ele paga-mas!

terça-feira, junho 06, 2006

Capítulo V

Sem sabermos este era o grande dia!
Acordámos cedo, e era se queríamos ter pequeno-almoço “de borla” na pensão.
Com as barrigas compostinhas, subimos ao primeiro andar para pegar nas gingas. Sim, também aqui tivemos de carregar com as bicicletas às costas…
Quando cheguei à rua vi que tinha o pneu da frente da Decathlon em baixo. Lá se iam as nossas esperanças de abalar cedo. Desmontámos a roda, e bem que procurámos mas não vimos nada.
A solução estava á vista: encher o pneu e partir! Tínhamos remendos e câmaras-de-ar para o que desse e viesse.
Carimbámos as nossas Credenciais do Peregrino, e lá partimos pela ponte do Lima.
Para recuperar o tempo perdido no dia anterior, tínhamos apontado chegar, nesse dia a Redondela, a 67 quilómetros.
O Caminho, apesar de lindíssimo, apresentou pontos complicados. Logo á saída de Ponte de Lima, sentimos dificuldades em prosseguir com as bicicletas, primeiro porque era impossível seguir montado e depois porque pouco espaço havia para as levarmos ao nosso lado.
Houve um sítio em especial que me marcou, quer pela beleza, quer “pela emoção, o perigo de viver…”: Dois pilares em ferro atravessavam um riacho cristalino! Ainda há lugares no mundo onde é possível não ver poluição! A emoção foi passar nesse pilares com as bicicletas, não sendo difícil tive um pouco de receio, é que as bicicletas ainda eram caras...
Foi neste dia que comecei a sentir cansaço. Principalmente nas subidas. Se até aí ainda fazia o esforço de prosseguir montado, depois deixei-me disso, seguindo os conselhos do meu sogro: “É preferível descer da bicicleta do que estar a esforçar”.
À saída de um trilho encontrámos o outro grupo, que nos deram miminhos: Iogurte, chocolatinhos, e muita força.
Ainda pensámos almoçar juntos mas o que nos apareceu pela frente foi contra tudo aquilo que esperava.
Uns amigos meus já tinham feito o Caminho a pé, e de facto eles falaram-me que a serra da Labruja era complicada, no guia que tirámos da Net também dizia qualquer coisa como: “São estes dois quilómetros da vertente da Labruja os mais extenuantes de todo o Caminho, justificando uma alternativa para os ciclistas que não queiram transportar a bicicleta às costas”, mas eu não liguei. Também era nosso propósito fazer TODO o caminho.
A subida da Labruja foi extenuante: Sempre com as bicicletas aos ombros ou de rojo, sempre com os músculos em tensão, não havia muitas hipóteses de descanso. Qualquer relaxamento da nossa parte, significava o recuo da bicicleta alguns centímetros, centímetros esses que tanto tinham custado a ganhar à serra!
Foram muitas horas naquele sufoco! Os nossos rostos, aos poucos, reflectiam a nossa alma: quando é que isto acaba?
Para complicar ainda mais, tinha-me acabado aquele milagre chamado Isostar. Até ao início desta aventura, o Isostar era, para mim, uma bebida porreira. Fazia-me sentir um grande atleta, daqueles da televisão. Mas no Caminho, senti que era muito mais do que isso. É, de facto, uma bebida energética e revigorante! Com ela sente-se menos sede e cansaço. A Cris, sempre céptica em relação as estas coisas, rendeu-se aos seus encantos. A água, só por si, não recolocava tudo aquilo que íamos perdendo debaixo daquele sol abrasador!
Mas como estava a contar, a subida ia-nos roubando as nossas expressões. Aos poucos fomo-nos fechando em nós mesmos. Senti que, muitas vezes, apesar de juntos, caminhávamos sós. Cada um consigo… O Caminho dava sinais de si!
Chegados à Cruz dos Franceses, decidimos dar, desta vez, ouvidos ao nosso guia e descansámos durante um bom bocado.
Umas laranjas, umas maçãs, umas barras energéticas e uns chocolates foram devorados como se tivessem culpa das dificuldades do Caminho. Mas souberam bem, muito bem, mesmo!
Mais frescos, se é que se pode dizer assim, preparávamo-nos para continuar, quando algumas nuvens uniram as suas lágrimas às que por dentro, mesmo sem querer, ia soltando. O tempo tinha virado!
Não valia a pena ficar por ali e lá continuámos a escalada.
De repente, uma estrada de terra batida! Tínhamos chegado ao fim!
Mas não, uns vinte metros depois, numa árvore, a famosa seta amarela sorria, maliciosa, para nós. Havia que continuar a subir…
De ganas, lá trepei pela serra a cima, deixando a partir de um certo ponto a Cris e o João para trás!
Ao longo do percurso, aprendemos que, quando aparecem estes rasgos de força, há que os aproveitar, e foi o que fiz.
A serra não me iria (a)bater!
Numa curva da subida, avisto um campo de pastagem com uma casa ou curral. Estava perto do fim! E assim era! Uns dez metros á frente, uma estrada de terra batida interrompia a subida agreste da serra.
Se calhar a mesma estrada que, muito antes, tínhamos visto e que confundimos com o fim da subida da Labruja!
Chegado lá cima, ainda esperei um bocado pelos meus companheiros de viagem. Quando os avistei, corri logo para ajudar a Cris. Que carinha a dela! Que mal a serra nos fez!
A expressão do João também era fechada.
Quando nos apercebemos que tínhamos chegado ao fim, uma explosão de alegria rompeu em nós!
Montámos as bicicletas, coisa que já não fazíamos há muito tempo, e lá partimos, deixando para trás muitas gotas de suor…
Eram cerca das duas e meia quando encontrámos uma loja. Daquelas tradicionais, de aldeia, onde se vendia de tudo. Entrámos e pedimos para almoçar. “Só temos três pães” informou-nos a dona. Não fazia mal, o que nós queríamos era comer… Estávamos a ficar famintos!
Os pães voaram num ápice! E a seguir os Bolicaos, os Chipicaos, os iogurtes (comidos com “enormes” colherzinhas de café), as Coca-Colas.
Estávamos perto de Valença e o nosso destino, Redondela, era apenas uma miragem.
Mais recompostos, subimos para as nossas montadas e partimos.
Muito perto de Valença há uma estrada romana que termina numa ponte que atravessa um ribeiro cristalino, transparente. O João passou-se com tanta beleza. Não fora o facto de estarmos extenuados e o tempo não estar a ajudar, tínhamos dado um mergulho!
Abalados física e psicologicamente, decidimos cortar caminho, seguindo a estrada nacional em detrimento do trilho.
Mas como um mal nunca vem só, o furo lento na roda da frente da minha Decathlon começou a avisar-me que afinal, de manhã, algo se passava.
A descida para Valença foi uma coisa “brutal”, como diria o João! Muitos quilómetros de alcatrão, sempre a descer, sem grande necessidade de pedalar!
O novo destino, Tui, estava a pouco quilómetros de distância.
Em Valença ainda tivemos tempo de dar uns dedos de conversa com os nossos concorrentes do dia anterior: os três espanhóis! Neste dia não estranhei nada que eles tivessem chegado primeiro do que nós!
Após as despedidas, lá fomos em direcção ao albergue de Tui, onde um duche quente e uma cama nos esperavam.
A nossa chegada ao albergue toma contornos de surreal!
Primeiro, ninguém sabia onde era, e depois quando descobrimos o local, apesar de aberto não se via vivalma. Um aviso com palavras em português dizia qualquer coisa que não entendemos, pelo que optámos pelo inglês.
Era um aviso com o horário e modo de funcionamento. Ligámos para o número indicado e esperámos por alguém que nos viesse acolher. Passados uns minutos, chega um espanhol que nos dá as boas vindas, carimba as nossas credenciais e nos mostra a casa.
Um peregrino já dormia. Quer dizer... Dormir dormia, mas peregrino??... Ficámos cheios de dúvidas. Mais dúvidas tivemos ao outro dia, quando começa a fazer “n” perguntas e a dar respostas contrárias. Ao João disse que ia para Santiago e a mim disse-me que ia para a Corunha. No entanto, todos os nossos receios eram infundados pois nunca mais o vimos.
Mudando de assunto, o Albergue tinha muito boas condições. Estava arranjadinho e asseado.
A primeira tarefa foi procurar o furo que ao longo do dia foi dando problemas. Remendada a câmara-de-ar, um chuveiro com água quente esperava por mim.
O jantar foi num restaurante indicado pelo tipo que nos acolheu no albergue e que supostamente tinha preços para peregrinos.
O cansaço do dia era cada vez mais evidente pelo que resolvemos regressar ao aconchego do albergue.
A noite foi passada um pouco em sobressalto motivado pela presença da “peregrino misterioso.”